Pão-pão-pão !

Holandês gosta MUITO de pão. Fato. Faz parte da cultura gastonômica deles, é barato, é variado, é versátil, é pratico. E engorda.

O pão deles (brood) vai pular pra cima de você em todas as partes. Nas estaçoes de trens, nas cantinas do trabalho, em várias prateleiras do supermercado, nas festinhas de escritório e de amigos, nos churrascos.

O nosso pão francês tão popular no Brasil aqui é quase desconhecido. Existe uma versão plastificada, pré cozida, que deve ser umedecida e levada ao forno. No geral holandês gosta de pães bem escuros, com sementes (girassol, gergelim – bem popular) ou nozes, passas, etc.

Eu no Brasil detestava pão, desde criança. Resisti quando cheguei  aqui. Não existia fruta tropical fresca para bater com no liquidificador antes de ir para o trabalho então fazia (ainda faço) uma papa de aveia.  Eu amava papaya com iogurte no Brasil, e com frequencia esse era meu café da manhã. Apesar de hoje em dia já ter descoberto abacaxi maduro fresco, abacate e melão, papaya mesmo eu nunca vi.

Com o tempo passei a adotar pão. Aqui a cultura geral é de se comer no café da manhã e também durante o almoço, na forma de sanduíche (broodje).Isso vale tanto para quem trabalha ou para donas de casa e crianças. Há inúmeras variedades, o kaasbroodje (pão quentinho recheado de queijo), o saucijsbroodje (massa folhada recheada de linguiça ou carne moída, também servido morno) até os sanduíches “saudáveis” (gezond) sem proteína animal (por exemplo, brie ou outro queijo com alface e pepino).

Se por raridade seu trabalho na Holanda for numa empresa grande, provavelmente há uma cantina que servirá sanduíches (e sopas compradas prontas).  Foi assim que o péssimo hábito de comer pão me pegou. Eu levava comida de casa, geralmente sobras do jantar do dia anterior para esquentar no microondas. Só que eram duas máquinas para a empresa toda e apenas 30 minutos cronometrados de almoço. E muitos colegas holandeses não apreciavam o cheiro de comida cozida e fumegante na hora do almoço nem que eu dividisse a mesa com eles prá comer meus legumes com carne. Era mais prático ou eu levar salada pronta, ou levar o próprio sanduíche ou comprar o da empresa na cantina. A variedade de pães holandeses, italianos e franceses era enorme no meu primeiro trabalho: ciabatta, baguette, pão preto com crosta de gergelim, pães de milho etc. Os recheios: diversos queijos, diversas saladas (tomates fatiados, pepinos, alfaces, rucola…) diversas pastas, cremes e molhos, diversas proteínas (frango defumado, ovos fatiados, arenque, bacalhau, etc.).  

Se o lugar onde você trabalho não oferece cantina, a maioria das pessoas ou come um fruta para o almoço ou sanduíche. Se você é do tipo que quer esquentar sua comida, você é um cara “chatinho pra comer” e pedante na opinião dos holandeses. Mimado, despreparado, exótico. Eu sofri, eu sofro, eu rio. 

As crianças holandesas adoram pão e desde o desmame começam a mastigar com miolinho de pão. Eu comecei com minhas crianças a complementar as mamadas com banana madura amassadinha e depois purê de batata bem macio. Minha sogra se espantou. Também muitos amigos do meu marido se espantaram com o fato de eu cozinhar um almoço, ainda que simples, aos sábados e domingos (e eventualmente nos meus dias de folga). Acham pouco prático.   

Ano passado eu li o maravilhoso livro Barriga de Trigo e voltei a reduzir o consumo de trigo através de pães, biscoitos, massas, etc.. Fato curioso é que li o título do livro em holandês  difere  do resto do mundo  e se chama… Barriga de Pão (Brood Buik). Achei um erro grosseiro do tradutor, já que o original é Wheat Belly (barriga de trigo).  Mas depois vi que comercialmente isso talvez tenha sido uma boa opção, já que apesar de ser louco por biscoitinhos e patisseria o holandês típico quase não come massas mas fica o dia inteiro no pão-pão-pão.

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O consumo de pão na Holanda é tão associado a um estilo de vida saudável e prático que muitos não podem nem ouvir falar nos malefícios do trigo ou em substituir sanduíche por comida cozida. Nas férias do ano passado fiquei um tempo na casa da minha sogra na França e ela ficou revoltada com minha opção detomar suco ou comer papa no café da manhã e depois salada com proteína no almoço. Ficou me questionando se eu iria retirar pão da vida dos meus filhos e porque eu ainda jantava se já tinha feito uma refeição no almoço. Até o fato de eu preferir comprar pão de spelt para as crianças do que os tradicionais pães de trigo a incomodou.  

Agora, holandês só não fica incomodado com uma coisa: nas férias pagar barato por uma refeição de boa qualidade ao meio-dia. Os terraços de bares e restaurantes na Espanha, Grécia, França, Portugal e Croácia estão repletos de holandeses que estão com amnésia dos “benefícios” nutricionais do pão. Minha sogra se esbalda no quiche lorraine com salada a 12 euros e no pato com batatas a 15 euros.

Pra terminar, duas receitinhas malucas que vi numa revista como sugestão de sanduíche aberto e (a-hem!) saudável :

Receita1:

Voce vai precisar de: duas fatias de pão preto, manteiga, chocolate granulado e morangos bem maduros, lavados e fatiados

Como fazer: Ai, você já até adivinhou né ? Coloque as duas fatias de pão no prato, passe manteiga, salpique de granulado, espalhe os morangos por cima e deliciai-vos.

Receita 2:

Voce vai precisar de: pão branco da sua preferência, queijo de cabra ou brie, metades de nozes, mel.

Como fazer: Ai, e eu lá preciso explicar ? Corte o pão ao meio e passe mel. Coloque fatias de queijo,  salpique de nozes e refastelai-vos !

Eet smakelijk !

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O Brasil com Z leu: The Dinner

*** Os colunistas do Brasil com Z começar vão começar a partir de agora a fazer resenhas informais sobre livros.***

Começo com um best-seller lançado em 2099 e até agora o livro mais bem vendido da literatura holandesa: o brilhante Het Diner (em inglês:  The Dinner) . De apelo universal, é um livro difícil de largar e brinca o tempo todo com a estrutura temporal.  A cada hora você pensa que está seguindo um raciocínio quando, inesperadamente, os acontecimentos tomam um outro rumo. O final é dark, mas muito interessante. 

A estória se passa num restaurante badalado em Amsterdam com um período mínimo de seis meses  para reserva. A estrutura de livro é dividida em cinco simples partes:  Aperitivo / Entrada / Prato Principal / Sobremesa / Digestivo (epílogo).

Os nomes dos capítulos demonstra que a estória se passa no par de horas que os quatro adultos protagonistas estão jantando, discutindo um grave problema familiar relacionado aos filhos. A tensão aumenta a cada garfada e no curto par de horas o narrador, Paul Lohman,  conta detalhes sobre eventos passados:  a infância dos filhos do grupo, sua carreira, seu casamento, suas férias na França, sua doença misteriosa. Paul  parece muito equilibrado nos seus pontos de vista, e conquista o leitor para suas opiniões com muito bom-senso. Até que pouco as pouco nada demonstra ser o que parece: todos, todos os personagens desconfiam uns dos outros, tem “agendas secretas” e perspectivas diferentes sobre os acontecimentos. Quem você odiava acaba mostrando ser o único com valores morais e familiares, e disposto até mesmo a abdicar de suas ambições políticas máximas.

A estrutura simples em cinco capítulos guarda um quebra-cabeça de verdades apresentada em camadas e de modo fracionado. O leitor fica querendo ir adiante, ler mais e mais para ter dados suficientes para poder ter uma clareza da situação – sem nunca obtê-la. A crítica ao ritual e manipulações cometidas por restaurantes estrelados é hilária e dá um alívio à tensão e quebra-cabeça.  Sim, a tensão é tanta que os personagens estão prestes a se espetarem e se furarem a qualquer momento e você a jogar o livro contra a parede.

Ao terminar o livro:

  • você vai querer se aprofundar sobre o assunto psicopatia, após ter sentido o gostinho desconfortável de estar dentro da cabeça de um perturbado mental.
  • Você vai rever seus conceitos de:

 paternidade/maternidade.

O eterno debate Nature x nurture (natureza  x  criação).

A influência da genética. O valor da adoção. 

  • Você vai ver filminhos no Youtube sobre o crime real acontecido em Barcelona no qual o livro se baseou.
  • Voce vai concluir que a sociedade holandesa, em todos os setores (político, familiar, etc.)  é extremamente permissiva.
  • Você conclui que os quatro comensais holandeses poderiam estar em qualquer lugar do mundo ocidental, jantando num restaurante estrelado, discutindo sobre os mesmo dilemas familiares. Poderiam ser novaiorquinos, cariocas, parisienses.  Daí o livro ter sido tão bem aceito no mercado internacional.

Fatos interessantes:

A capa em holandês (e bem como todas as capas das edições internacionais, variaçoes sutis) é sempre a mesma: uma lagosta num prato, um fundo azul turquesa, o título em branco/verde ácido. Nenhum dos personagens pede lagosta durante o jantar.     

O livro em holandês com capa dura está há muito tempo esgotado via bol.com Comprei por acaso em inglês, tradução excelente de todas as expressões holandesas.  

Herman Koch foi expluso definitivamente do liceu que frequentava e não concluiu o segundo grau.

O autor nas entrelinhas do The Dinner faz um deboche de como os holandeses se portam quando de férias no exterior. Um dos personagens tem uma casa na França e quer se passar o tempo todo das férias por francês (com a gramática francesa errada, cozinhando do modo holandês e achando que franceses também fazem como ele, reclamando do tempo holandês e do caráter dos holandeses mas a casa sendo situada num enclave de holandeses, com convidados holandeses etc.)  Como meus sogros tem casa na França, eu ri o tempo todo dessas situações reconhecíveis e holandeses irritantes.  

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The Dinner foi encenado nos teatros holandeses e alemães  em 2012, com grande sucesso. No cinema o filme holandês já estreou em novembro do ano passado. Devo confessar que apesar ainda não ter assistido, a escolha da atriz para a personagem Babette me decepcionou (no livro a personagem é descrita como sendo muito alta, muito magra, loura, etérea e de extrema beleza. A atriz holandesa Kim van Kooten é todo o oposto disso). Veja AQUI o trailer do filme holandês. Cate Blanchet irá dirigir a versão em inglês do filme, a se lançado no ano que vem.  

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A escolha do ator holandes Jacob Derwig para o papel de Paul me pareceu excelente. Ele solicitou à Ms. Blanchett o papel de Paul no remake americano via… Twitter. (!!!)  

Sobre o autor:

Herman Koch (Arnhem, 1953) é, além de escritor, ator comediante escrachado e durante anos (de 1990 a 2005). participou  do programa televisivo  humorista/absurdista  “Jiskefet” (que  mal e mal traduzido do frísio significa “lata de lixo / cinzeiro”). Foi colunista durante anos para o jornal Volkskrant e a revista feminina Libelle. The Dinner é seu sexto livro, e o mais bem sucedido, tendo sido traduzido para 37 línguas e vendido milhões de exemplares. Koch é casado com uma espanhola de Barcelona e tem um filho: Pablo. Em várias de suas colunas já contou que é ele quem compra casacos e sapatos para sua mulher – e ambos sofrem de síndrome de pânico.  Como todo holandês, Koch é poliglota: domina espanhol, alemão e inglês. Herman Koch detesta sair pra jantar na Holanda.  

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